Engraçado como uma região praticamente desconhecida e tão pequena pode ser o centro de todas as atenções políticas mundiais. Ainda mais engraçado, é que os dois personagens principais e antagônicos que estrelaram a famosa e finada Guerra Fria, começam a se posicionar em sentidos contrários quanto às posturas dos dois países envolvidos. Enquanto os russos brigam com a Geórgia e estão fazendo de tudo para declarar a independência da Ossétia do Sul, que se aproxima, realmente, muito mais da população russa do que da georgiana, a Geórgia tenta manter o controle da região desde o fim da União Soviética, mesmo havendo sempre o desejo separatista da região e conta com o apoio de muitos países ocidentais, inclusive dos Estados Unidos, quem já andou trocando farpas com a Rússia em declarações internacionais.
Pra ser sincero, eu ainda não tive tempo de refletir acerca do assunto para tomar um partido ou formar uma opinião à respeito. Estou trazendo isso de forma mais jornalística do que crítica. No entanto, eu já posso dizer que discordo completamente de uma das posturas da Rússia.
Como pode um país alegar que está fazendo guerra para salvar vidas humanas? Eis a declaração do presidente Medvedev ao reconhecer a independência dessas duas regiões perante à Geórgia:
“Meus compatriotas cidadãos da Rússia!
Vocês estão sem dúvida cientes sobre a tragédia da Ossétia do Sul. O bombardeio em estilo de execução noturna conduzido por tropas da Geórgia resultou na morte de centenas de nossos civis. Entre os mortos havia membros das forças de paz russas, que deram suas vidas para cumprir seu dever de proteção às mulheres, crianças e idosos.
A liderança georgiana, violando a Carta das Nações Unidas e suas obrigações sob os tratados internacionais, e contrariando a voz da razão, deflagrou um conflito armado que fez vítimas entre os civis inocentes. O mesmo destino estava reservado à Abkházia. Obviamente, eles em Tbilisi esperavam por uma guerra-relâmpago que teria apresentado ao mundo um fato consumado. A maneira mais desumana foi selecionada para atingir esse objetivo anexar a Ossétia do Sul por meio da aniquilação de todo um povo.
Essa não foi a primeira tentativa de fazê-lo. Em 1991, o presidente Gamsakhurdia, da Geórgia, tendo proclamado o lema “Geórgia para os georgianos” –pensem só nisso!– ordenou ataques contra as cidades de Sukhumi e Tskhinvali. O resultado, então, foram milhares de pessoas mortas, dezenas de milhares de desabrigados, aldeias devastadas.
E foi a Rússia que, então, pôs fim à erradicação dos povos ossetiano e abkhaz. Nosso país se apresentou como mediador e como protetor da paz, insistindo em um acordo político. Ao fazê-lo, nos deixamos orientar invariavelmente pelo respeito à integridade territorial da Geórgia.
A liderança georgiana escolheu outro caminho. Perturbou o processo de negociações, ignorou os acordos atingidos, cometeu provocações políticas e militares, atacou as forças de paz –ações que violaram de maneira grotesca o regime estabelecido nas zonas de conflito com o apoio das Nações Unidas e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
A Rússia continuamente exibiu calma e paciência. Apelamos repetidamente pelo retorno às negociações e não nos desviamos de nossa posição mesmo depois da declaração unilateral de independência de Kosovo. No entanto, nossas persistentes propostas ao lado georgiano para a conclusão de acordos com a Abkházia e a Ossétia do Sul que prevenissem o recurso à força passaram irrespondidas. Lastimavelmente foram também ignoradas pela Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) e até mesmo pelas Nações Unidas.
Parece bastante claro, agora, que uma resolução pacífica do conflito não fazia parte dos planos de Tbilisi. A liderança georgiana estava se preparando metodicamente para a guerra, enquanto o apoio político e material fornecido por seus guardiões estrangeiros só servia para reforçar a percepção de sua impunidade.
Tbilisi fez sua escolha na noite de 8 de agosto de 2008. Saakashvili optou pelo genocídio como forma de realizar seus objetivos políticos. Ao fazê-lo, se tornou responsável por eliminar as esperanças de uma coexistência pacífica entre georgianos, ossetianos e abkhazes em um Estado unificado.
Os povos da Ossétia do Sul e da Abkházia por diversas vezes se pronunciaram em referendos que favorecem a independência de suas repúblicas. Nosso entendimento é que, depois do que aconteceu em Tskhinvali e havia sido planejado para a Abkházia, eles têm o direito de decidir seu destino de maneira autônoma.
Os presidentes da Ossétia do sul e da Abkházia, com base nos resultados de referendos conduzidos e de decisões tomadas pelos Parlamentos de ambas repúblicas, apelaram à Rússia que reconheça a soberania da Ossétia do Sul e da Abkházia como Estados. O Conselho da Federação e a Duma [as duas casas do Legislativo russo] votaram atender a esses apelos.
É necessário tomar uma decisão com base na situação prática existente. Considerando a vontade expressa livremente pelos povos da Ossétia do Sul e da Abkházia, e sob a orientação das cláusulas da Carta das Nações Unidas, da declaração 1.970 quanto aos Princípios da Lei Internacional sobre o Relacionamento Amistoso entre Estados, do ato final da conferência da CSCE em Helsinki, de 1975, e de outros instrumentos internacionais fundamentais, assinei decretos pelos quais a Federação Russa reconhece a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia.
A Rússia apela às demais nações que sigam esse exemplo. Não se trata de uma escolha fácil, mas representa a única possibilidade de salvar vidas humanas.”
Partindo-se do conceito de Política, e a ciência de que a mesma é alternativa à Guerra, será que existe mesmo alguma razão por trás das atitudes da Rússia? Não sei… Mas em breve retomarei este assunto e poderei falar com mais propriedade.
Abraços,
Bruno Merak.
Escrito por brunomerak